
“Cicatrizes” fala sobre preconceito, justiça e, principalmente, amor à literatura
Acostumada com os palcos e em disseminar suas ideias para grandes plateias, Vania Ferrari decidiu desafiar seu poder de comunicação escrevendo uma história surpreendente. Em “Cicatrizes”, o público acostumado com a temática do mundo do trabalho, que ensina que “é possível trabalhar e ser feliz no mesmo lugar”, se vê em meio a um thriller capaz de fazer o leitor querer ser parte da história e ajudar na solução de um mistério.
“Cicatrizes” é um romance violento e “super gay” – pelas palavras da própria autora –, que domina o leitor e o faz esquecer o que acontece ao seu redor. Ambientado entre os anos 1980 e 1990, numa cidade do interior, o livro fala de uma menina que tenta compreender o que a faz sentir-se tão “inadequada” para os padrões da época.
Em paralelo, na capital, ocorrem inúmeros crimes cujos autores se intitulam “lixeiros do mundo” munidos de carta branca para eliminar seres “diferentes” deles. Guiados por seus próprios critérios, aqueles que agem como seres abjetos, são merecedores da pena de morte aplicada por quem se julga acima da lei.
Antagonizando com as cenas de violência, há o poético “Bar do Meio” onde acontecem saraus literários, regados a álcool e erudição, que expõem o lado romântico e humanista desta mesma cidade. Mas que segredos atravessam esses personagens e como eles se relacionam na narrativa? Como seus desejos e seus medos se cruzam na história?
Em “Cicatrizes”, primeira obra de ficção de Vania Ferrari, vemos um texto envolvente e fluido, capaz de nos fazer viajar entre o interior de São Paulo e a capital. Nas décadas de 80 e 90, ainda era um grande tabu pertencer ao grupo LGBTQIAP+ – ou só GLS, parafraseando Vania – então as pessoas eram obrigadas a se esconder, viver nas sombras e reclusas. A obra também mostra a libertação de quem passa a se tornar visível com os avanços sociais. Entre crime e cura, há ódio e paixão, perdição e salvação. E ainda um final que te prenderá até a última linha.
