Escrita originalmente por Sêneca 50 d.C., a Tragédia de Medea é considerada uma das maiores criações do filósofo romano.

Medea é sem dúvida uma das mais conhecidas figuras da mitologia grega. Escrita por Eurípedes, no século V a.C., é uma tragédia que traz um texto profundo sobre traição, vingança e a condição feminina na sociedade grega antiga. Quatro séculos depois da versão de Eurípides, a Medea do filósofo e político romano Lúcio Aneu Séneca revisita o mito da mãe que mata os próprios filhos como vingança ao ser repudiada por Jasão, mas também apresenta outros debates como o etarismo.
Ao atribuir a responsabilidade dos atos humanos aos próprios indivíduos, as tragédias do filósofo romano Séneca ficaram por séculos fora do palco, sob a ideia de que sua violência só poderia ser suportada na leitura. Medea, na versão de Séneca, novo projeto do diretor Gabriel Villela, traz o desafio de colocar em cena a desmedida da fúria, da ira e da vingança. Até hoje, com raras montagens no Brasil, o espetáculo estreia dia 29 de janeiro de 2026, no Sesc Consolação, e a temporada segue até 8 de março.
A versão de Séneca também traz outras diferenças importantes. “Para começar, é mais curta e muito mais violenta. De modo geral, suas tragédias ampliam o que chamam de desmedida: a fúria, a ira, estão no centro de tudo o que escreve”, afirma Gabriel Villela. O diretor também destaca que, em Séneca, o conflito interno de Medea é mais evidente, com uma escalada dramática que conduz ao crime final.
Na tragédia do filósofo do período romano (Séneca foi preceptor do imperador Nero), Medea emerge como uma estrangeira, traída e politicamente silenciada, cuja revolta ecoa em questões femininas e na violência contra a natureza. A montagem desta Medea por Villela enfatiza essa dimensão: uma mulher que devolve ao mundo a fúria acumulada pelo desprezo de Jasão e a sentença de exílio proferida pelo rei Creonte, de Corinto. A natureza torna-se uma narradora trágica que responde às atrocidades cometidas pelos próprios homens.
“O texto é primoroso e parece importante hoje apontar a relação dele com a violência que ronda o nosso dia a dia. Nós temos nos confrontado com a barbárie o tempo inteiro, na política, nos assassinatos festivos, na internet que julga e sentencia, nos tornamos o vírus capaz de acabar com o planeta”, observa Villela. A equipe de criação destaca ainda a potência retórica de Séneca e sua capacidade de unir a palavra ao poder da imagem. “Isso é um valor importante de seu texto”, completa.
Com a cenografia de J. C. Serroni, a montagem cria um espaço duplo inspirado no circo-teatro mambembe e no palácio de Creonte. Os figurinos de Gabriel Villela são também um forte elemento cênico nesta montagem. Ao todo, são 27 peças usadas ao longo do espetáculo. Cada figurino traz a sobreposição de peças ou tecidos com elementos extraídos da natureza da floresta do cerrado mineiro.
A montagem apresenta três intérpretes para Medea: Rosana Stavis, Mariana Muniz e a participação especial de Walderez de Barros. A elas se somam Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro, completando o elenco.
Séneca e o Estoicismo
Filósofo, poeta e humanista, Séneca, expoente do Estoicismo, defendia a igualdade entre os homens, rejeitava a escravidão e a distinção social, e valorizava o autocontrole, a liberdade interior e a responsabilidade ética aplicados à vida concreta. Para ele, o exercício da moderação e da serenidade frente às adversidades constituía um caminho ético para atravessar o sofrimento e sustentar a vida.
“Todas as tragédias que ele escreveu, na verdade, são formas de apresentar essa filosofia, o Estoicismo”, diz o diretor adjunto Ivan Andrade. “O cerne de seus textos é essa desmedida humana. Na tragédia grega, as desmedidas eram atribuídas aos deuses. Séneca coloca a responsabilidade maior no ser humano, é sempre uma ação humana que passa das medidas. Em suas peças, há a ideia da moderação e sempre tem um momento em que dá a entender que o personagem pode recuar”, completa.
Serviço:
Medea
Sesc Consolação – Teatro Anchieta – Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo – SP
Telefone para informações: 11 3234-3000
Temporada: 29/1 a 8/3/2025
Horários: Quintas, Sextas e Sábados, às 20h. Domingos, às 18h
Sessões em horários diferenciados:
Dia 14/2. Sábado, às 18h
Dias 26/2 e 5/3. Quintas, às 15h
Lotação: 280 lugares | Duração: 80 minutos | Classificação: 16 anos
Ingressos: R$70 (inteira) R$35 (meia entrada) e R$21 (credencial plena)
Venda on-line a partir de 20/01 (terça), às 17h, em centralrelacionamento.sescsp.org.br e no App Credencial Sesc SP
Venda presencial a partir de 21/01 (quarta), às 17h, nas bilheterias do Sesc São Paulo
Para pautas e sugestões: colunaquartacapa@gmail.com
